Custos altos e calor residual emperram a economia circular do átomo
França – A gigante instalação de La Hague, referência mundial em reprocessamento, consegue tratar 1.700 toneladas de combustível nuclear gasto por ano, mas nem mesmo essa capacidade muda o fato de que menos de 10 % dos resíduos radioativos globais voltam ao ciclo produtivo.
- Em resumo: o reprocessamento reduz volume, mas gera material mais quente, caro e politicamente sensível.
PUREX: eficiência química sob escrutínio econômico
Pelo método PUREX, o combustível é dissolvido em ácido para separar urânio e plutônio, convertendo-os em novos combustíveis como o MOX. Segundo análise publicada pela Bloomberg Technology, o processo adiciona até 30 % ao custo total do ciclo do combustível em comparação ao descarte direto.
“Não importa quão bom seja o seu processo de reciclagem, você ainda precisará de um repositório geológico no final”, alerta Edwin Lyman, diretor de segurança nuclear da Union of Concerned Scientists.
Menos volume, mais calor: o paradoxo do MOX
A diretora Allison Macfarlane explica que o MOX gera muito mais calor do que o combustível original. Como a limitação nos depósitos subterrâneos é térmica, não volumétrica, parte do ganho logístico simplesmente desaparece.
Para piorar, o urânio recuperado sai contaminado com isótopos difíceis de filtrar, tornando seu reenriquecimento financeiramente inviável hoje. O resultado: a França estoca o material como reserva estratégica, e o Japão, mesmo após três décadas de obras, só deve inaugurar sua planta em 2027.
Geopolítica do urânio e cenários futuros
Com cerca de 70 % de sua eletricidade proveniente de reatores, a França paga o “prêmio de segurança nacional” descrito pelo ex-diretor Paul Dickman. O país importa todo o urânio que consome; reciclar significa reduzir dependência externa em um momento em que a spot price da commodity subiu 40 % desde 2021, segundo dados da IAEA. Já para nações com mineração abundante – caso do Canadá e do Cazaquistão – o incentivo econômico praticamente some.
Nos bastidores, startups de reatores modulares prometem processos alternativos, baseados em sais fundidos e separação por laser, que poderiam cortar custos e diminuir a produção de plutônio passível de uso bélico. O Departamento de Energia dos EUA avalia projetos-piloto até 2030, mas especialistas defendem que o investimento em P&D deve caminhar lado a lado com a expansão de depósitos geológicos.
O que você acha? A nova geração de reatores conseguirá fechar o ciclo nuclear ou o descarte continuará sendo a regra? Para mais análises sobre inovação e energia, acesse nossa editoria especializada.
Crédito da imagem: Divulgação / MIT Technology Review